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“Dizemos que somos o quarto poder, mas parece que estamos no quarto do poder” – Omardine Omar defende rigor e independência no jornalismo investigativo

“Dizemos que somos o quarto poder, mas parece que estamos no quarto do poder” – Omardine Omar defende rigor e independência no jornalismo investigativo

“O jornalista investigativo não é amigo de ninguém, porquanto deve ser defensor da verdade e dos interesses do público. Foi com esta premissa incisiva que Omardine Omar, jornalista investigativo e Director da Integrity Magazine, abriu a sua intervenção na palestra subordinada ao tema “Jornalismo investigativo e Direitos Humanos em tempos de polarização social e política”, promovida na passada sexta-feira, 21 de Agosto de 2026, pela Associação de Jornalistas Ambientais e de Direitos Humanos (AJADH).

O evento, realizado em formato híbrido (presencial na sede da AJADH, no Bairro das Mahotas, e via Microsoft Teams), contou com a moderação de Sandra Vilanculos (AJADH) e reuniu profissionais da comunicação, activistas e cidadãos para debater o papel da imprensa livre num contexto nacional marcado pela crescente tensão política, desinformação e violação sistemática dos direitos fundamentais.

Durante o debate, Omar sublinhou que a verdadeira missão da investigação jornalística passa longe de ocultar factos ou contemporizar com os poderes instituídos. Pelo contrário, exige desvendar o lado oculto da realidade para trazer à luz matérias de incontestável relevância social, guiando-se sempre pela transparência, pelo rigor e pela técnica. Para o orador, o jornalismo de investigação não coaduna com a pressa nem com a imprecisão, por ser um trabalho minucioso que exige especialização, paciência para cruzar fontes, e respeito estrito pelas fases e processos de averiguação dos factos.

“O jornalista não pode beneficiar partes nem deixar-se mover pelas emoções. Deve ser um escravo da verdade e agir com a razão”, enfatizou, sustentando que a salvaguarda da democracia em Moçambique depende directamente de uma imprensa vertical, capaz de actuar sem amarras ou concessões partidárias.

Um dos momentos de maior reflexão crítica incidiu sobre a fragilidade e os perigos que cerceiam o exercício da profissão no país. Ao analisar o estatuto da imprensa na sociedade moçambicana, Omar lançou uma provocação contundente, ao afirmar que “dizemos que somos o quarto poder, mas parece que estamos no quarto do poder. O nosso quarto poder é facilmente manipulado no nosso país.”

Segundo o Director da Integrity Magazine, a independência editorial exige autonomia financeira e de gestão. Para manter o seu trabalho intacto e imune a pressões extremas, destacou a importância de diversificar parcerias internas e externas, lembrando a máxima pragmática das relações de poder, ao destacar que “se alguém não tem controlo de ti, então tu estás contra ele.”

Esta independência paga-se, contudo, a um preço alto. Ademais, o debate trouxe à tona o cenário tenebroso de insegurança que afecta os jornalistas moçambicanos, marcado por ameaças de morte, torturas, assassinatos sem desfecho conclusivo e enxurradas de processos judiciais coercivos e sem fundamento legal, desenhados para intimidar a classe e cidadãos, no geral.

Omar partilhou a sua experiência pessoal ao recordar que a sua própria vida já esteve em risco devido às reportagens que realizou sobre crimes ambientais no contexto da indústria extractiva, tendo alertado ainda para o facto de as próprias redações no país não disporem de mecanismos institucionais adequados para garantir a integridade física e jurídica dos seus profissionais, deixando-os desprotegidos numa sociedade onde a intimidação se vai tornando perigosamente banalizada.

Apesar de Moçambique ser signatário de convenções internacionais e possuir um enquadramento constitucional que protege os Direitos Humanos, Omardine Omar reiterou que o fosso entre o texto da lei e a prática quotidiana continua abissal.

“Não temos como falar sobre Direitos Humanos enquanto persistir a tortura, a insegurança e as mortes injustificadas de detidos dentro das esquadras”, denunciou o jornalista, sublinhando que a sensibilidade às dores humanas é a condição sine qua non para qualquer investigação profunda nesta área.

Num ambiente crescentemente dominado pela polarização social e pela rápida disseminação de desinformação nas redes sociais, onde verdades manipuladas circulam sem controlo e prejudicam o debate público legítimo, o orador concluiu reafirmando que o único antídoto reside num jornalismo livre, rigoroso e destemido.

No encerramento da palestra, Omar deixou clara a hierarquia de valores que orienta o seu trabalho diário perante a audiência: “nada está acima do interesse público. Para além da verdade, o meu compromisso inabalável é garantir a segurança das minhas fontes e valorizar a vida.”

Texto: AJADH

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