
“Todo órgão que consegue vender sua credibilidade consegue ganhos financeiros” – Nelson Mucandze

O abandono da busca passiva por financiamento tradicional e a transição para o jornalismo colaborativo figuram entre as principais soluções para garantir a sustentabilidade dos órgãos de comunicação social e a integridade de trabalhos investigativos. A posição foi defendida, esta quarta-feira, 19 de Agosto, por Nelson Mucandze, Director do Jornal Evidências, durante uma palestra realizada na sede da Associação de Jornalistas Ambientais e de Direitos Humanos (AJADH), sob o tema “Estratégias de sustentabilidade e superação de limites financeiros no jornalismo investigativo”.

Numa abordagem pedagógica, o Director do Evidências sustentou que, no contexto do jornalismo de investigação, a credibilidade amplia a influência, abrindo caminho para oportunidades económicas. Segundo o palestrante, “o jornalismo investigativo transforma, a longo prazo, o jornalista numa referência, permitindo-lhe construir conexões e formas de subsidiar as suas próprias peças”.

Nelson Mucandze apontou a escassez de recursos financeiros e a carência de mão-de-obra qualificada como os principais entraves ao exercício da profissão no país, justificando que as academias oferecem apenas formação geral. Como consequência, os recém-licenciados chegam às redacções com lacunas práticas expressivas, exigindo longos períodos de capacitação interna.




No que toca ao financiamento, Mucandze alertou que a gritante limitação orçamental das redacções coloca a independência editorial em permanente risco. A produção de matérias investigativas exige investimentos elevados em logística, deslocações, estadias e protecção dos repórteres. Contudo, perante a falta de recursos próprios, muitos órgãos acabam por aceitar que as despesas operacionais sejam custeadas pelas próprias instituições, figuras públicas ou entidades visadas nas matérias. Para o palestrante, este tipo de dependência financeira cria conflitos de interesse imediatos, comprometendo a imparcialidade das peças noticiosas e condicionando a liberdade do jornalista no terreno.




Para reverter este cenário, Mucandze recomendou aos gestores de media o investimento na formação contínua e a adopção do jornalismo colaborativo. Esta prática permite a partilha de recursos e a obtenção de dados através de fontes posicionadas nas províncias, reduzindo a dependência de patrocínios institucionais ou individuais.
Desafiado a fazer uma leitura sobre o actual cenário político e social em relação aos desafios da classe, o orador assinalou que “o país apresenta uma abertura formal para a prática do jornalismo investigativo”, amparada por quadros legais. No entanto, contrapôs que a prática diária enfrenta barreiras no acesso a dados públicos e no fechamento das fontes institucionais. Mucandze reforçou a urgência de democratizar o fluxo informativo, advertindo que “onde não há informação, a rainha que reina é a especulação” – um ambiente opaco que mina a confiança pública, alimenta desinformação e bloqueia o escrutínio democrático essencial ao desenvolvimento do país.
Texto: AJADH