
Peixe e Pedra: Pesca artesanal e exploração mineral em Nacala-a-Velha – Exposição fotográfica de Iago Vinícius Avelar Souza

As fotografias reunidas nesta exposição foram produzidas entre agosto e dezembro de 2017, durante um trabalho de campo realizado nos distritos de Nacala e Nacala-a-Velha, no norte de Moçambique. Elas registram o cotidiano da pesca artesanal, as paisagens costeiras e as transformações provocadas pela instalação de um grande empreendimento portuário voltado ao escoamento de carvão mineral.
Nas imagens, a pesca aparece como mais do que uma atividade econômica. Ela está presente nos corpos que puxam as redes, nas mãos que reparam as embarcações, nos movimentos dos mergulhadores, nas crianças que observam e participam do trabalho e nas relações construídas entre pescadores, barcos, marés, praias e peixes. Cada gesto revela conhecimentos aprendidos ao longo da vida e transmitidos pela convivência e pela prática.



As fotografias também registram uma paisagem em transformação. Em Nacala-a-Velha, a construção do porto da Vale, posteriormente operado pela CLN, modificou os espaços de circulação, restringiu o acesso a antigas áreas de pesca e introduziu novas marcas na costa. Próximo às estruturas portuárias, a poeira do carvão se acumulava sobre plantas, construções e áreas de manguezal. Ao mesmo tempo, os pescadores relatavam a diminuição dos peixes e a necessidade de percorrer distâncias cada vez maiores para encontrá-los.
Entre o mar e o porto, as imagens revelam a convivência desigual entre diferentes formas de ocupar o território. De um lado, embarcações artesanais, redes puxadas manualmente e conhecimentos produzidos na relação cotidiana com o ambiente. De outro, trilhos, vagões, navios e estruturas industriais destinadas a transportar o carvão extraído em Moatize, a centenas de quilômetros dali.



Essas fotografias não pretendem apenas ilustrar os impactos de um megaprojeto. Elas acompanham pessoas que continuam pescando, construindo embarcações, reparando redes e criando maneiras de permanecer em um território atravessado por profundas mudanças. Mostram o trabalho, o esforço, a espera, a aprendizagem e também as incertezas que passaram a fazer parte da vida nas praias de Nacala-a-Velha.




Durante o trabalho de campo, acompanhei diferentes etapas da pesca artesanal e participei de algumas de suas atividades. Aos poucos, a câmera deixou de registrar somente aquilo que eu observava e passou a acompanhar relações das quais eu também começava a participar. As imagens apresentadas a seguir nasceram dessa aproximação e desse aprendizado compartilhado.




Ao percorrer a exposição, o público é convidado a observar não apenas aquilo que ocupa o centro de cada fotografia, mas também o que aparece em suas margens: os corpos envolvidos no trabalho, os instrumentos, as marcas do carvão, as mudanças na vegetação e a presença constante do mar. É nesse encontro entre pessoas, paisagens e infraestruturas que se revela a disputa entre a continuidade da pesca artesanal e o avanço da exploração mineral em Nacala-a-Velha.


Este ensaio fotográfico integra a pesquisa “A Vale em Moçambique: mapeando controvérsias sociotécnicas em África e alhures”, realizada em parceria entre a Universidade Federal de Minas Gerais, no Brasil, e a Universidade Lúrio, em Moçambique, com o apoio do Programa Pró-Mobilidade Internacional CAPES/AULP. A exposição dialoga diretamente com a pesquisa etnográfica desenvolvida sobre a pesca artesanal e as transformações provocadas pelo Corredor de Nacala.

Iago Vinícius Avelar Souza é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais/Brasil com Graduação Sanduíche pela Universidade do Lúrio/Moçambique. Atuou como membro do Laboratório de Antropologia das Controvérsias Sociotécnicas da FAFICH, UFMG/Brasil. Tem experiência na área de pesquisa com desastres ambientais provocados por mineradoras, tanto no Brasil quanto em Moçambique. Atua desde 2018 junto as Assessorias Técnicas dos Atingidos e Atingidas por Barragens de Mineração no Brasil.

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